Minhas idas a Batatais
- 24 de mar.
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Batatais, cidadezinha perto de Ribeirão Preto, um oásis de paz no interior. Passei algumas férias da infância e adolescência lá, visitando meu tio-avô Plínio e a esposa, tia Nenê. Meu tio Plínio era uma figura. Um personagem. Graças a ele, tive contato com uma fazenda de verdade. Se perguntarem pra mim qual o aroma que te lembra infância, do qual você mais gosta, a resposta é: bosta de vaca. Que delícia lembrar do tio entrando no curral, com aquela bota com calça por dentro, pisando em tudo. Sorriso tranquilo, histórias sem censura. Ele casou com minha tia no início do século XX, foram morar em uma casa “no meio do mato” e criaram 4 filhos. Na fazenda Dezengano (com z). Que era muuuuito longe de São Paulo: na época, levava umas 12 horas de trem.
Chegávamos na casa dele, agora na cidade, e logo ele pulava lá de dentro, com aquele abraço gostoso. Cheiro de feijão do forno a lenha, cheiro de tinta das aulas de pintura de tela da minha tia e cheiro de terra. Acordava com barulho de charrete. Os passeios na cidade eram: a Igreja, a praça, sorveteria, lojas de sapato, comprar paçoca e doces caseiros feitos no tacho de cobre. Os carnavais de rua eram muito gostosos, com música tradicional!
A entrada da fazenda era uma descidona de terra, que meu tio fazia conosco em um fusca creme, motor desligado, na “banguela”. A terra vermelha entrava e não tinha por onde sair, com os vidros fechados. o carro parava bem em frente à casa. Eu andava no cavalo Milagre, chupava laranja e passeava pela horta. Visitava os galos de briga (crime já prescreveu) e as vacas. Tomava leite, pegava umas frutas e voltávamos para a casa na cidade. Fazia tudo isto na companhia do meu grande tio-herói.
Certa vez, acabou a gasolina do fusca. Meu tio tocou a primeira campainha que viu, o rapaz saiu, pegou seu carro e levou meu tio até o posto de gasolina. Ele nunca tinha visto meu tio e saiu de casa para ajudar. Outra vez, meu tio resolveu mostrar os quadros de Cândido Portinari (cuja restauradora era minha tia “Nenê”, nome era Michelina) que estavam na famosa Igreja Matriz de Batatais, linda por sinal. Estava tendo um casamento! Mas ok, passamos por trás do padre e meu tio mostrou as obras, aparecendo no vídeo do casamento! Outra vez, meu tio resolveu me dar coxinha para comer em casa, até que falou o nome do galo que eu estava comendo… era de briga. Outra ocasião, me fez ouvir músicas de LP que ele pegou emprestado da loja do amigo. A história mais clássica: tinha um bordel na frente da fazenda que não tinha energia elétrica. As donas pediram ao meu tio para “puxarem” energia da fazenda e meu tio, logicamente, permitiu. Ele ganhou uma festa no bordel (literalmente).
Vida dura de fazenda e tranquila ao mesmo tempo. Não consigo ir mais pra lá sem ter um aperto no coração.
Referências





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